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segunda-feira, 11 de agosto de 2008

Seqüestrados

Mesmo que o tempo vire ele não sairá de lá, agora. A idéia é respirar quase sem fôlego. Mesmo que o tempo feche. Os dedos, polegar e indicador, transpiram mais que qualquer outra parte do corpo. Transpiram um misto de medo e suco de laranja da rodoviária. Não sai por nada:

– Cala a boca, branquela! – esbraveja com agressividade a uma guria de pouca idade – Tenta nada não! Tenta nada não qui eu tô ficâno irritado com essa palhaçada!
Era ultimato sem valor, já que o fazia com tanta freqüência. Mas sempre que gritado, assustava sim.

Num canto superior direito uma câmera de segurança já era destroço, entre dois orifícios balísticos, um no teto e outro na parede mesmo. As bugigangas todas se desenhavam como uma selva o protegendo. Uma sombrinha pendurada, comprida e rosa bem forte, o incomoda espetando seu cotovelo vez ou outra, já que não podia se mover muito.

– Você não precisa fazer isso... pensa na sua família, garoto. Tem gente que...
– Caralho! Eu num queru cunversa. Sai fora! – Responde rápido interrompendo.
– Tem gente que te ama... pensa
nisso, garoto.

Aquela ladainha toda irritava. Falar de amor era tão mais clichê quanto um poema. Tudo muito chato! Duma chatice colorida que corrompia a faringe alcançando o céu da boca com um amargo melancólico.

Ficava ali, mexendo só um dos pés, pensando noutro lugar. Enquanto ela, muda e pálida, pensava aquele lugar. Ele ficava ali, roçando suas coxas no ombro dela, sem desejo. Ela respirava úmido e lento, numa intensidade que irritava ele, que não podia mais enxergar o ponto de ônibus. Não se podia saber se seqüestrado estava ela, ou ele.

Mas, mesmo que a coisa fique feia ele não sairá. Não consegue mais ver os carros. Só o som deles, mais lento, dada a visita, rápida e sedenta, da imprensa. Só o som do freio do ônibus grunhindo seco e desajeitado. Agora não dava mais pra sair assim, sem nada. As chaves de casa lhe cadenciavam um samba no bolso todas as vezes que era preciso pulso firme. É preciso pulso pra essas coisas e, agora, já não dava mais mesmo pra ver a pelota de gente pendurada pelos vidros no ônibus das cinco e meia da tarde. É tarde.
música: Alma Nua (Vander Lee)
.
Alex Pinheiro

14 comentários:

  1. Alma nua e crua... Ótimo testo, querido!

    Venha brincar conosco na nossa Semana Divertida!

    Beijos!

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  2. Muito bom. Diferente, sensual... Fodido! Abraço.

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  3. fala alex, muito bom o texto!!!
    segue link da banda Solana, de uns amigos meus, pra vc baixar o CD e divulgar por ai.

    http://www.felizfeliz.com.br

    abração.

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  4. sabe uma coisa que eu adoro em vc? é esse jeitinho de comparação:"suco de rodoviária"...

    Chaaaaaaaaaaaaaaaaaaant.

    Beijo.

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  5. Mesmo que a coisa fique feia e eu tenha que demorar de aparecer da blogsfera tenho que dar um jeito de vim aqui...de qualquer jeito,rs

    Beijo

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  6. Muito bom...
    Não quer dividir um pouco desse talento com as palavras,não?
    Abraço!

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  7. Muito!

    Viu, mudei de blog :)

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  8. Quantas vezes nos sentimos seqüestrados pela vida que temos...
    ...que muitas vezes é uma vida onde não queríamos que existisse!

    Beijos e Boa semana!

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  9. medo e suco de laranja, combinação explosiva num belo texto
    abraços

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  10. qto se pede de resgate por um coraçao?

    Alex me leva pra rua.

    []´s

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  11. êita!
    bom demais da conta, Alex.
    =****

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  12. tá meio clubber seu blog
    oaspoaoskapoks
    congratulations

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a imagem-título é uma invenção de Mariah

 
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